Os Muros Invisíveis de Angola
Como os estereótipos, o tribalismo e o regionalismo enfraquecem a construção da Nação.
Introdução
Angola é um dos países culturalmente mais ricos de África. Com 21 províncias, dezenas de povos, várias línguas nacionais e inúmeras manifestações culturais, o país construiu a sua identidade na diversidade.
Entretanto, essa riqueza nem sempre é valorizada. Em muitos espaços, as pessoas deixam de ser conhecidas pelo seu nome, caráter ou competência e passam a ser identificadas apenas pela província de origem.
Frases feitas, piadas, imitações de sotaques, generalizações e rótulos são repetidos diariamente, muitas vezes apresentados como simples humor. Porém, quando essas ideias moldam a forma como vemos os outros, deixam de ser apenas brincadeiras e passam a alimentar preconceitos.
Este artigo não pretende condenar o humor saudável, mas convidar à reflexão sobre os limites entre a descontração e a discriminação.
O que é um estereótipo?
Estereótipo é uma imagem simplificada e generalizada atribuída a um grupo de pessoas.
Ele reduz milhares de indivíduos diferentes a uma única característica.
Dizer que "todos os habitantes de determinada província são iguais" ignora a diversidade existente dentro de cada comunidade.
Os estereótipos podem parecer inofensivos, mas tornam-se perigosos quando passam a justificar preconceitos, exclusões ou discriminações.
O que é tribalismo?
O tribalismo consiste na valorização exagerada do grupo de pertença em detrimento dos demais.
Quando levado ao extremo, cria divisões, favorecimentos e desconfiança entre cidadãos do mesmo país.
Num Estado moderno, a competência, o caráter e a cidadania devem prevalecer sobre qualquer origem étnica ou regional.
O que é regionalismo?
O regionalismo é o forte sentimento de pertença a uma determinada região.
Por si só, não é negativo.
O problema surge quando o orgulho regional transforma-se em sentimento de superioridade ou desprezo pelas outras regiões.
Valorizar a própria terra não exige diminuir a terra do vizinho.
Como nasceram estes rótulos?
Grande parte dos estereótipos existentes em Angola resulta de fatores históricos.
Durante o período colonial, diferentes regiões receberam tratamentos distintos.
Posteriormente, a guerra civil provocou deslocações populacionais, aumentando o contacto entre culturas diferentes.
Com o crescimento das cidades, especialmente Luanda, surgiram rivalidades locais, brincadeiras populares e formas de humor baseadas nos sotaques, hábitos alimentares, profissões tradicionais e modos de falar.
Com o tempo, algumas dessas piadas deixaram de ser apenas humor e passaram a influenciar a forma como muitos percebem determinados grupos.
Quando o humor deixa de ser apenas humor
O humor aproxima pessoas.
Mas também pode afastá-las.
Quando um jovem deixa de ser avaliado pela sua competência para ser julgado pela província onde nasceu, o problema deixa de ser uma simples piada.
Quando alguém acredita que determinada região produz apenas pessoas preguiçosas, arrogantes, ingénuas, interesseiras ou incapazes, estamos perante preconceitos que nada têm de científico.
Cada província possui trabalhadores exemplares, profissionais competentes, líderes honestos, estudantes brilhantes e cidadãos comprometidos.
Nenhum território produz um único tipo de pessoa.
Angola constrói-se pela complementaridade
Nenhuma província vive isoladamente.
O litoral precisa do interior.
O campo precisa da cidade.
A cidade precisa do campo.
Os agricultores alimentam os centros urbanos.
Os pescadores abastecem mercados em todo o país.
Os professores formam profissionais.
Os profissionais desenvolvem empresas.
As empresas geram emprego.
Os médicos cuidam da saúde.
Os engenheiros constroem infraestruturas.
Os artistas preservam a cultura.
Todos dependemos uns dos outros.
É essa complementaridade que sustenta uma nação.
Reflexão
Quando África falou aos seus filhos…
Certo dia, todas as províncias de Angola decidiram reunir-se numa grande praça.
Mal chegaram, começaram as provocações.
— O teu povo só sabe isto…
— O vosso sotaque é engraçado…
— Vocês são assim…
— Vocês são assado…
Cada grupo encontrava um defeito no outro.
Uns riam.
Outros respondiam.
Outros ofendiam-se.
A discussão parecia não ter fim.
Foi então que uma velha senhora apareceu.
Trazia nos olhos a idade dos baobás.
Chamava-se África.
Ela caminhou lentamente até ao centro da praça.
Sorriu.
Esperou que todos se calassem.
E perguntou:
— Já terminaram de contar os defeitos dos vossos irmãos?
Ninguém respondeu.
Então África voltou a falar.
— Agora lembrem-se de quem vocês realmente são.
Olhou para Cabinda.
— Das tuas águas e do teu subsolo nasce parte da energia que move Angola.
Voltou-se para as Lundas.
— Guardais riquezas minerais que projetam o país além-fronteiras.
Sorriu para o Uíge e para o Cuanza Sul.
— O vosso café levou o nome de Angola ao mundo.
Depois olhou para o Huambo, Bié e Huíla.
— Alimentais milhares de famílias com a força do vosso trabalho.
Dirigiu-se ao Namibe e Benguela.
— O mar ensina-vos diariamente a perseverança e alimenta a nação.
Olhou para o Cunene.
— A tua cultura pastoril ensina resistência e adaptação.
Voltou-se para Malanje.
— Conservas paisagens que são património de toda a humanidade.
Sorriu ao Moxico e ao Cuando.
— Guardais florestas, rios e biodiversidade que pertencem às futuras gerações.
Finalmente, olhou para Luanda.
— És o lugar onde Angola inteira se encontra.
Depois ergueu a voz.
— Percebem agora?
O peixe precisa do agricultor.
O agricultor precisa do comerciante.
O comerciante precisa do motorista.
O motorista precisa do mecânico.
O mecânico precisa do professor.
O professor precisa do pedreiro.
O pedreiro precisa do engenheiro.
O engenheiro precisa do enfermeiro.
O enfermeiro precisa do agricultor.
Todos precisam de todos.
África respirou profundamente e concluiu:
— Quando olham apenas para o defeito do vosso irmão, esquecem-se de olhar para as próprias limitações.
Perguntam por que o outro é assim.
Mas raramente perguntam:
"E eu? Em que posso melhorar?"
Antes da província existe a Pátria.
Antes da etnia existe o ser humano.
Antes do sotaque existe a dignidade.
Antes das diferenças existe Angola.
Conta a fábula que, naquele dia, ninguém saiu igual daquela praça.
Porque compreenderam que o maior recurso de Angola nunca foi apenas o petróleo, os diamantes, o café, o mar ou as terras férteis.
O maior recurso sempre foram os próprios angolanos, quando escolhem caminhar juntos.
"Esta fábula é uma criação literária do Prof. Da Rosa Jr., desenvolvida para a Enciclopédia de Angola, dedicada à promoção da cidadania, identidade nacional, educação e desenvolvimento humano através da literatura reflexiva."
Conclusão
Os estereótipos podem parecer pequenos, mas as grandes divisões nacionais começam quase sempre com pequenas palavras.
Uma Angola mais forte constrói-se quando aprendemos a substituir rótulos por conhecimento, preconceitos por convivência e rivalidades por cooperação.
A diversidade nunca foi o problema.
O problema é quando deixamos de enxergar o outro como compatriota.
A verdadeira riqueza de Angola está na capacidade de transformar diferenças em sinergias, porque nenhuma província é maior do que a nação que todos partilhamos.